terça-feira, 16 de outubro de 2012

Promissora punheta

Todos querem um lugar ao sol mas se colocam sob o ar refrigerado. Assim é que começo escrevendo e termino punhetando. E não estou com vontade.

Macumba

Onipresente. Parece uma vida cíclica. Tudo igual. Tudo previsível, ainda que não se possa imaginar o desfecho. Em cada segundo eu sei quem vai estar lá. Em cada direção eu sei quem vai estar lá. Em cada minima expressão eu sei quem vai estar lá. E é assim que me condeno a nunca ter alguém aqui. Nem mesmo o Onipresente.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

22002


Um casal de namorados chega à Praça da Republica, centro da cidade do Rio de Janeiro. Chove. Muito. Os dois sentam-se no meio da praça e começam a organizar um piquenique. O menino pega um abacate e lambe. A menina pega uma carambola e amassa. Os dois pegam cachos de uva e os pisoteiam. As bananas são comidas, mas as cascas são dadas a mendigos que ali proximo estão sentados. Os sanduiches naturais foram esfarelados e jogados pela praça. Cai um trovão. Os dois gritam 22002. Bem vindos à Republica!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pinte-me

Saudades... Havia uma época em que sonhava com uma vida amarela. Nessa época, tudo era amarelo, mas a minha sede era vermelha. Meu olhar, ofuscante. Os sonhos eram coloridos, mas o amarelo me chamava mais a atenção do que qualquer outra cor. Nesses sonhos, uma sereia amarela me mantinha confiante. Uma verdadeira princesa... O tempo passa, e tudo vai perdendo o brilho. O mundo fica cinza. Cinzamente cinza. Eu tenho medo do cinza, e quero uma vida amarela. Acho que quando tudo que vejo é cinza, também sou cinza... Tudo era amarelo, mas será que eu era amarelo? Afinal, cinza ou amarelo? Qual é a minha cor? Pinte-me. Um roseado sorriso, um azulado obrigado e um avermelhado abraço. Eu nao tenho cor... Saudades!

Psimaçãnálise

Na complicada delimitação do cedo e do tarde, temo adiantar ou atrasar o exato. E o exato é exato. Sem um tempo a menos ou a mais. Portanto, quando será o exato? Quando sentir? Quando pensar? Ele ja passou? As maçãs sabem. Sim, elas sabem. Elas caem quando sentem? Quando pensam? Na verdade, elas se colocam sob a maestria do tempo e seguem sua natureza. Maçãs sentem e pensam, mas esperam. Eu não quero esperar. Maçã é maçã. Eu sou eu. A vida é a mesma e não tem verdade nem resposta. Ponto.

GG

Olhos sem brilho, pele sem cor e com cheiro de cigarro, assim como suas roupas. Um porco bigode e uma barba por fazer. Chulé. Rotineiro e bebedor. Ambicioso por nada. Grosseiro e sistemático. Nas sextas, bêbado. Orgulhoso de sua família. Um péssimo orgulho. Havia enjoado de ovos e deixado de sonhar. Aos 7, a mãe virou estrela. Aos 20, o fiel escudeiro foi para a lua. E a partir de então, seu único interesse era por morte. Finge viver uma vida que morreu. Eis o paradoxo vital: quem quer morrer, vive!

sábado, 8 de outubro de 2011

És um senhor tão bonito...

O tempo continua seguindo seu caminho, renovando a humanidade. A humanidade que reside a minha volta, de uma forma natural, evoluiu, e continua em constante evolução. Considere a palavra 'evolução' com o significado de 'dar prosseguimento à sua vida'. Evolução nos remete a algo grandioso, e de fato é. Mas nesse caso, quando detalhar-me, entenderá que trato de um fato comum a todos, menos a mim. E talvez entenda porque utilizei tal palavra.

Todos ao meu redor cresceram, entraram na puberdade. Elas passaram pelo constrangimento de 'virar mocinha'. Eles, pela vergonha da mudança de voz. Comigo, quem sabe infelizmente, não foi diferente. Cresci, tenho barba e pentelhos. Dessa vez, realmente infelizmente.

Falo de uma evolução vital. Tal qual o crescimento do corpo, o crescimento da mente. Pessoas tomam decisões, compram roupas, escolhem namorados, estudam, pensam, sonham, fazem. E eu aqui, como se estivesse em um ponto de ônibus esperando algum ônibus que ninguém sabe se vai passar. E à minha frente, um ônibus sem condutor. Será que barba e pentelhos ensinaram todos a dirigir?

Algumas poucas vezes eu dirigi. Agora, consigo recordar-me de dois destinos: Central do Brasil e Vila Velha. Dois lugares que me deixaram em estado de êxtase. Por algum motivo inexplicável que me devora, não dirigi mais. Fico em dúvida se minha alma de condutor prendeu-se a uma dessas felicidades, ou se o que me falta é coragem para deixar o passado ser passado.

Escrever me lembra Central do Brasil. Hoje, a felicidade se transforma em uma melancólica nostalgia. Escrever me remete ao número 8, que me leva à Vila Velha, outro passado - ou presente - alegre.

Passado e presente entrelaçam-se em um tempo aparentemente sem futuro. Porém quem sabe essa terapia não represente o embarque no ônibus até então sem condutor?

Barba e pentelhos, vocês ainda ensinam a dirigir?